quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A viagem


Foram dez dias de viagem. Logo, antes do anoitecer, chegamos à balsa para atravessar o rio Paraná. Um rio tão largo como eu nunca havia visto um. Bem no meio do rio não dava pra ver nenhuma de suas margens. Uma imensidão de água. 
O motorista do caminhão dirigia até de madrugada quando o sono apertava. Então estacionava, geralmente próximo a um posto de gasolina e dormia um pouco. Antes do dia nascer ele retomava a estrada.Na carroceria do caminhão sobre uma pilha de colchões dormiamos, eu meus seis irmãos, meu pai, minha mãe e o irmão da esposa do meu tio. Meu tio, a esposa e o filhinho viajavam na boleia do caminhão.  Ao redor da pilha de colchões estavam armários e guarda roupas, dentre outros móveis sob uma estrutura de madeira coberta por uma lona. A lona  permanecia um pouco levantada e apreciavamos a paisagem que corria na beira da estrada. Quando paravamos para dormir ou iamos passar por algum posto de fiscalização a lona era totalmente abaixada. Ficavamos em silêncio para não sermos descobertos. Era proibido viajar daquela maneira.
A comida era feita  em um fogareiro de duas bocas. Geralmente o motorista que conhecia bem a estrada parava na beira de algum igarapé ou rio. Enquanto minha mãe cozinhava, lavavamos roupas, vasilhas e tomavamos banho. Logo, logo estavamos feito  camarões por causa do sol. Meu pai comprou um saco de bombons de hortelã. Ajudava a diminuir náuseas e vômitos. Depois de algum tempo a sensação de trepidação do motor  entranhava em nossos sentidos que já não sabiamos mais quando ele estava desligado.
Naquela época, até Cuiabá a estrada era asfaltada. De lá pra cá era lama, atoleiros e muito buraco, quando não era poeira.
O caminhão não atolou nenhuma vez. Lembro que por um longo trecho arrastamos um ônibus, que por ser muito baixo não conseguia andar sem atolar.
Nas proximidades de Cacoal existia uma fila de caminhões que aguardavam enquanto um trator os rebocava na travessia de um lamaçal que era impossivel de ser atravessado sem sua ajuda. Descemos e caminhamos alguns quilômetros até a parte urbana da cidade enquanto esperavamos a fila andar. Minha mãe aproveitou pra procurar notícias de alguns de seus primos que moravam naquela cidade.
Finalmente, na tarde do dia dezesseis chegamos ao nosso destino.

2 comentários:

  1. Que bela história. Aguardo ansioso os próximos capitulos!!

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  2. Gosto de fazer tudo devagar. Contenha um pouco sua ansiedade.

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